Um falcão das Caraíbas no furacão "Betsy"

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    Memórias do mar na juventude remota.

    Um Falcão das Caraíbas no furacão Betsy. (Agosto, Setembro de 1965 )

    Há muitas histórias sobre o mau tempo no mar e até grandes compositores como Wagner, escreveram Óperas como o “Navio Fantasma”e Rimsky-Korsakov , oficial da Marinha Russa, a “Sadko” , uma espécie de “Sindbad o marinheiro” em versão moderna.

    Pois bem, aqui vem mais uma, desta vez curta narrativa, sob a forma de uma furacão nas Caraíbas misturado com a estranha aventura de um pássaro de terra, perdido em cima do mar a muitas milhas da costa mais próxima. No que toca ao pássaro vão-se contar todos os pormenores do que se passou, tal e qual, na realidade. No fim, por favor, não me façam perguntas sobre a fantástica história do animal e de como foi possível acontecer. Por aqui pouco se sabe de Biologia e muito menos de Ornitologia pelo que não saberíamos dar uma resposta satisfatória.

    willemstad -Curaçao
     

    Tudo começou num dos últimos dias de Agosto de 1965 no maravilhoso porto de Wilhemstadt em Curaçao. O “São Mamede” tinha entrado três dias antes para lavagem de tanques e carregamento de gasolinas e combustíveis de aviação. Três dias bem passados naquele “Holanda” dos trópicos, onde, na rua, as lindas morenas contrastavam com as loirinhas vindas da Metrópole. A SHELL tinha ali uma das suas maiores refinarias do mundo e o “Clube Shell” convidava os oficiais dos navios para festas, e espectáculos diversos. Depois havia a praia. As piscinas do clube, onde se ia para o bar, beberricar umas “piñas colladas” ou umas “cubas libres” indescritíveis, ao som da alegre música de ritmos latinos e conversar com uma holandesa simpática ou uma crioula não menos atraente.
    Enfim, tudo o que é bom dura pouco, e agora estávamos de partida ao fim da tarde, ao pôr do sol, saindo nas águas tranquilas do canal a fim de seguir directos a Lisboa.
    O Capitão tinha dado ordem de seguir pelo norte, directo a Sombrero e Anguilla para se fazer a ortodrómia* para o destino. A saída pelo sul costumava ser por Martinica , Dominica, mas era de maior distância.
    No entanto aquela decisão não agradava a ninguém. A meteorologia noticiara o furacão Betsy com ventos de mais de 250 K/h, deslocando-se directo a Miami e à Florida.
    Mas que raio de ideia! Íamos passar mesmo perto e não seria certamente muito divertido. Ainda por cima ao pé do célebre triângulo das Bermudas…
    Eram as manias estranhas daquele Capitão, grande marinheiro, antigo Piloto da Aviação Naval e Oficial da Armada, mas muito introvertido, pouco falador e pouco sociável. Era fotógrafo e “spotter” viciado, revelava e ampliava a bordo as suas próprias fotografias enquanto ouvia discos de vinil a tocar sinfonias de Beethoven ou Óperas de Wagner, sempre acompanhado da sua inseparável cadela “Tucha”. Claro que naqueles tempos ninguém sonhava sequer com CD`s e fotografia digital!
    O tempo estava bom e nada pressagiava o que nos esperava para o dia seguinte, mar estanhado, ar calmo, só a morna aragem da deslocação do navio se fazia sentir.
    Foi de pouca dura. Durante a noite o vento começou a soprar fresco de sueste e o mar a ficar cavado, com vaga grossa. Vinte e quatro horas depois da nossa partida fecharam-se todas as portas e vigias, o pessoal da ponte a meia nau ficou isolado da ré e só alguns marinheiros passavam com arnês, cabos e gatos de segurança à volta da cintura pelo passadiço de meio-navio para chegar avante.
    Durante dois dias não foi possível cozinhar a bordo, comíamos restos dos frigoríficos e ninguém conseguia dormir com os violentos balanços.
    O casco do navio rangia de maneira terrível, parecia que ia partir-se, o mar corria por cima do convés até à ré e a proa mergulhava nas vagas enormes parecendo não querer voltar ao de cima.
    “Este Comandante não regula!” pensei comigo, “se calhar o que o fulano quer é tirar fotografias para mostrar em terra aos amigos…”
    Sombrero Farol

    Maldição! Passámos entre Anguilla e o farol de Sombrero entrando directamente no Atlântico debaixo do pior dos tempos.

    Ao terceiro dia de navegação o vento tornou-se menos forte, a vaga diminuiu e foi finalmente possível passar para ré. Entrei de quarto ao meio-dia, extenuado, depois de três dias sem dormir e consegui ir á asa da ponte para melhor me aperceber do estado do tempo. O céu continuava muito nublado, o vento era agora forte de noroeste, o mar continuava cavado mas a vaga diminuíra, e de repente, olhando para o céu e para ré fiquei estarrecido: no ar, atrás da popa do navio, um falcão do mar, enorme, voava majestosamente lutando contra o vento, seguindo teimosamente o navio como derradeira esperança de sobrevivência!

    Sabíamos que, quando há grandes tempestades, as aves são por vezes arrastadas pelo vento para o mar, onde acabam por cair extenuadas de exaustão, morrendo sem qualquer possibilidade de voltar para terra.
    Há quanto tempo viria aquela águia atrás de nós? Estávamos já a mais de trezentas milhas da terra mais próxima e era espantoso que ela ali estivesse e se aguentasse com um esforço indescritível no ar batendo as asas sem repouso e sem pousar. Porque não pousava no navio? Provavelmente porque a visão acidental das pessoas a bordo a afugentaria. Durante o dia inteiro a imponente ave voou, voou sem parar, mas ao cair da noite reparei que pousara no topo do mastro de vante para ali passar a noite. O tempo começou a melhorar e quando entrei no quarto da noite, à meia-noite, o meu primeiro pensamento foi ver se o falcão ainda lá estava. Perguntei ao outro piloto, mas na noite nada se via e não soube responder-me. Com os “flashlights” vislumbrava-se uma vaga sombra no topo do mastro, mas ninguém podia ter a certeza. Lembrei-me então da lanterna “ALDIS” dos sinais morse luminoso. Apontei-a com o gatilho premido e com a outra mão segurando o binóculo: lá estava o falcão! Com os olhos bem abertos, espantados, mas estático e pousado na verga do mastro.

    Lanterna ALDIS

    O S.Mamede. No mastro de vante pode avistar-se a verga onde a ave pousava para dormir à noite.

    Durante o quarto, até às quatro da madrugada, para além das rotinas de navegação e do boletim da “meteo” entretive-me a dar tratos à imaginação pensando nas probabilidades do falcão se salvar. Se a gente o conseguisse apanhar… metia-se num camarote, dava –se -lhe água e comida e soltava-se à chegada a Lisboa. Mas como?
    Na manhã seguinte quando voltei à ponte, já toda a gente a bordo falava do falcão. E, lá ia ele a voar novamente atrás do navio. Já devia andar ali há três dias, sem beber, sem comer e a voar durante o dia inteiro! Como era possível?
    De volta ao quarto da meia-noite conversei com os marinheiros da vigia sobre o assunto. Agora, estava o pássaro novamente pousado no mastro de vante, a descansar na noite. Diz um marinheiro:
    – A gente podia fazer o seguinte: o “xô” piloto atira-lhe com a luz da “Aldis” para cima. O bicho fica encadeado e eu vou lá acima, com as luvas da manobra e agarro-o.
    Respondi:
    -Não sei se ele se deixa agarrar. Vai ser difícil! Mas vamos tentar.
    O marinheiro desceu, viu-o passar por baixo para o convés de vante, dirigir-se ao mastro e começar a subir lenta e cuidadosamente. Acendi a “Aldis” com o foco de luz para cima do pássaro. O marinheiro subiu no escuro, estendeu lentamente a mão e agarrou o animal, apertando -o contra o peito.
    Há que reconhecer que este marinheiro foi o grande herói desta história : subir ao mastro não era difícil… mas descer com aquela águia enorme agarrada ao peito já não era tão fácil.

    De volta à ponte, pusemos o bicho em cima da mesa de navegação.
    De asas abertas tinha mais de um metro de envergadura!
    Diz o marinheiro:
    – Oh “xô” piloto! É lindo! Parece a águia do Benfica!.
    Respondi:
    -Bem! Faz favor mete o bicho no meu camarote, vamos atar-lhe uma pata com este pedaço de cabo de retenida e prende-se ao cano do lavatório que depois trato dele.
    Às quatro da manhã, excitado com o sucesso da captura, e com a curiosidade do desenrolar do acontecimento, fui ao frigorífico da copa a meia-nau, tirei um bocado de carne crua. Cortei-a aos bocados para dentro de uma prato. Depois peguei numa garrafa de água e numa malga e ,com as grossas luvas de manobra calçadas, fui para o camarote. Já estava tudo cheio de porcaria e quando tentei dar carne a comer e água na malga para beber o pássaro desatou-me às bicadas às luvas furioso e piando de raiva : guim ! guim ! guim ! guim!
    Depois limpou-se aquela porcaria toda o melhor possível e cobriu-se o chão com restos de jornais e revistas velhas retiradas do salão.

    Pois o “Mamede”, baptizado pela tripulação, só começou a comer, morto de fome, e sofregamente depois de mais três dias! Espantoso!
    Era a grande novidade a bordo. O tempo ficara bom entretanto e o Capitão, como que resmungando entre dentes, quando passava por mim não perdia a oportunidade:
    -Ouça lá… Você não percebe nada disso… Os falcões têm que ser treinados desde pequenos por gente que saiba… Com uns carapuços especiais, com os olhos vendados, para depois conhecerem o dono. A falcoaria é uma arte muito antiga e tem muito que saber…Ouça lá, percebeu?
    – Sim! Sim! Senhor Comandante eu só quero salvar o bicho…
    E, felizmente para o bicho e para nós todos que “torcíamos” por ele, chegámos a Lisboa depois de doze dias de viagem.
    Atracámos em Cabo Ruivo. Formalidades e “visita” das autoridades. Tudo bem. Estava uma manhã de sol, quente típica de um dia de Setembro. Quando tudo ficou sossegado a bordo, o segundo Maquinista, o segundo Piloto, o Imediato e eu fomos buscar uma garrafa de champanhe e preparámos a “largada” do “Mamede”. Grande Festa! Peguei nele, como sempre, com as luvas de grosso cabedal, quase até ao cotovelo. Agora já não oferecia muita resistência e estava a ficar habituado. Chegámos à borda e atirei-o para o ar. O falcão voou, mais uma vez, imponente. Subiu, deu duas voltas sobre o navio, talvez para reconhecimento do local ou para despedida? Depois dirigiu-se para norte e desapareceu por trás das árvores de Olivais ao longe.
    Nunca mais o vimos. Abrimos o champanhe e bebemos à saúde do “nosso” falcão. Afinal ele tinha conseguido atravessar o Atlântico, mais de três mil milhas náuticas, seis mil kilómetros e chegara salvo e de saúde a Portugal! O Imediato riu-se, e, segurando na taça de champanhe, disse:
    -É assim na vida! A todo aquele que se esforça, aparece sempre uma mão amiga para o ajudar…

    Às vezes uma situação desesperada pode ter um final feliz e inesperado…

    O Furacão “Betsy”
    http://www.hurricanescience.org/history/storms/1960s/betsy/

    Notas para “não marítimos” :

    *Ortodrómia : arco de círculo máximo que representa a distância mais curta entre dois pontos na superfície de Terra. O rumo vai variando à medida que se prossegue na viagem.
    A “loxodrómia” representa uma distância maior, mas tem a vantagem de ter o rumo constante.
    O “Titanic” seguia a ortodrómia, caminho mais a norte, quando se deu o seu abalroamento com o iceberg.

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